Roberto Fonseca
O Matuto que Pensava.
Num tempo de respostas fáceis e pensamentos enlatados, pensar por si mesmo virou ato de resistência. E se conhecer, então, é quase rebelião espiritual. Por Fonseca.R
Autoconhecimento, minha gente, não é moda de terapeuta nem discurso de coach engravatado. É luta diária.
Noutro dia, cruzando as veredas do pensamento (sim, porque quem ainda se atreve a pensar anda em estrada de chão, com pedregulho e poeira), topei comigo mesmo — e, confesso, não gostei muito da companhia. Era eu, ali, de cara fechada, perguntando: “Homem, tu ainda se conhece? Ou já virou retrato falado do que os outros dizem que tu é? ”
Vivemos um tempo cabra-cega, onde o povo se conforma com a luz do celular no escuro da ignorância. Pensar, hoje, virou esforço suspeito. É como se fosse pecado mortal dizer: “Deixa eu refletir sobre isso”. O sujeito que pensa virou figura exótica, bicho em extinção. Preferem as respostas mastigadas, empacotadas e com lacre de fábrica: “Use isso. Pense assim. Sinta assado. ” E o povo, feito gado de vaquejada, vai, sem mugir nem perguntar.
Pois eu digo: o maior desafio hoje é pensar com cabeça própria — e mais ainda, pensar sobre si mesmo! Conhecer-se, como disse aquele velho filósofo de sandália gasta, é abrir a porta do curral onde guardamos nossos demônios e virtudes. Dá trabalho, dá susto, mas liberta.
Autoconhecimento, minha gente, não é moda de terapeuta nem discurso de coach engravatado. É luta diária. É você encarar seus fantasmas sem vela e sem reza pronta. É saber onde aperta o calo, onde mora o medo e onde se esconde aquele talento que você enterrou por vergonha.
E não adianta correr: quem não se conhece vive carregando o fardo dos outros. Vive com raiva do vizinho, mas o que incomoda mesmo é o espelho que o outro virou. Quem se conhece aprende a calar quando é preciso, a falar com coragem, a mudar de rumo sem perder o prumo.
Se o mundo está doente, é porque os homens desaprenderam de olhar para dentro. Preferem o barulho da opinião alheia ao silêncio da própria consciência. Mas o segredo está aí: conhecer-se é como plantar raiz. Pode não dar flor no primeiro verão, mas firma a alma na terra e fortalece o tronco para qualquer tempestade.
Então, meu amigo leitor, antes de sair por aí dizendo “eu sou assim mesmo”, pergunte primeiro: “Mas será que eu me conheço mesmo? ” Porque só quem se conhece pode se aperfeiçoar. E só quem se aperfeiçoa pode ajudar a consertar esse mundão torto em que vivemos.




COMENTÁRIOS
em 20/08/2025
Preclaro IR.’. Fonseca, cada linha um valoroso aprendizado. Obrigado por nos brindar com tão seleta obra 👏🏻👏🏻👏🏻🔨🔨🔨